Poética dos territórios
Cosmologias e Saberes Borum-Kren
1. Contextualização do território
Ouro Preto é amplamente reconhecida como um território de profundo enraizamento histórico, no qual se articulam processos de ocupação do período colonial, o ciclo do ouro e a consolidação do Barroco Mineiro. No entanto, certas presenças desse território foram mantidas à margem dos processos históricos, sociais e políticos. Entre elas, destacam-se as histórias e a presença das comunidades indígenas que, até os dias atuais, seguem lutando pelo reconhecimento de suas identidades enquanto grupos sociais e por sua legitimidade no território.
Trata-se de comunidades remanescentes cujas origens e identidades foram historicamente questionadas em função de processos prolongados de apagamento, silenciamento e negação da presença indígena na região. Ainda assim, essas comunidades mantiveram e mantêm modos de vida, práticas culturais e formas próprias de organização que resistem e se atualizam no presente, tendo na oralidade um eixo central de ativação da memória, de transmissão de saberes e de reconstrução de vínculos territoriais.
Nesse contexto, o projeto compreende que seu papel não é o de conceder visibilidade ou reconhecimento, mas o de somar a processos de luta, pesquisa e retomada já em curso, contribuindo para a documentação, o registro e a circulação de saberes que antecedem e excedem a atuação institucional, a partir de uma perspectiva crítica e contra-colonial.
2. Recorte da primeira edição
Esta primeira edição do programa Poética dos Territórios Simbólicos tem como foco os povos indígenas da região de Ouro Preto/MG, com ênfase nos processos contemporâneos de retomada identitária e territorial do povo Borum-Kren. Reconhece-se, desde o início, a importância de ampliar o olhar para outros grupos indígenas da região, como os indígenas da Santa Efigênia, compreendendo o território como um campo relacional, atravessado por múltiplas presenças, temporalidades e histórias.
O projeto prioriza o protagonismo das mulheres indígenas, entendidas de forma ampla e diversa, incluindo anciãs, adultas e jovens, pertencentes aos diferentes distritos e núcleos territoriais do município. A partir dessas mulheres, o projeto aborda os processos de retomada cultural, territorial e simbólica em curso, reconhecendo seu papel central na ativação das memórias e na sustentação dos modos de vida comunitários.
3. Protagonismo feminino, territórios e redes
Quatro mulheres atuam como referências centrais desta edição, a partir de seus territórios e trajetórias: Dona Lilica, do distrito de Antônio Pereira; Cida, do subdistrito de Piedade; Neusa, do distrito de Santo Antônio do Leite; e Bárbara Flores, liderança do povo Borum-Kren, que atua também na perspectiva de continuidade do projeto.
Essas mulheres não são compreendidas como representantes exclusivas, mas como eixos de escuta, articulação e mobilização, a partir dos quais outras mulheres da comunidade são convidadas a participar ao longo de todo o processo. Seus saberes, experiências e memórias orientam a identificação dos territórios, das práticas culturais e das histórias que estruturam o desenvolvimento do projeto, fortalecendo redes comunitárias e intergeracionais.
4. Retomada, autoidentificação e legitimidade
O povo Borum-Kren encontra-se em um processo contemporâneo de retomada indígena. Considerado por muito tempo como extinto, esse povo constrói coletivamente sua autoidentificação a partir da memória oral, das pesquisas históricas e da atualização de práticas culturais. O termo Borum-Kren constitui, assim, uma autodenominação que opera como estratégia política, cultural e identitária frente a séculos de apagamento e negação da presença indígena no território.
Apesar do reconhecimento institucional nas esferas municipal, estadual e federal, por meio da FUNAI, a legitimidade dessas comunidades segue sendo questionada no campo das disputas simbólicas e narrativas. O projeto reconhece esse campo como sensível e entende que sua atuação exige pesquisa aprofundada, escuta qualificada e posicionamento ético rigoroso, assumindo uma perspectiva contra-colonial diante das versões hegemônicas da história.
De acordo com o cacique Danilo Antônio Campos da Silva, um levantamento informal identificou cerca de 200 famílias distribuídas entre diferentes núcleos e localidades Borum-Kren, como Salto, Santa Rita, Cachoeira do Campo, Bocaina, Antônio Pereira e Santo Antônio do Leite, evidenciando a dimensão territorial e social desse processo de retomada.
5. Metodologia
O projeto será desenvolvido a partir de uma abordagem participativa e comunitária, centrada na escuta, no diálogo e no protagonismo das mulheres indígenas. O mapeamento é compreendido não como a produção de um mapa cartográfico, mas como um processo de catalogação sensível e poética dos modos de vida, das práticas culturais e das relações territoriais, orientado por uma perspectiva contra-colonial.
A metodologia articula encontros comunitários, oficinas práticas, registros audiovisuais e sistematização etnográfica, respeitando os tempos, os modos de organização e as formas próprias de transmissão de saberes da comunidade. Reconhecendo a complexidade do campo, o projeto assume o compromisso com a formação continuada da equipe, a consulta permanente às referências acadêmicas e o acompanhamento de pesquisadores e indigenistas.
O projeto contará com o acompanhamento do antropólogo Matheus Arcanjo, cuja atuação contribuirá para o rigor metodológico, a escuta qualificada e a contextualização etnográfica dos processos mobilizados ao longo do desenvolvimento da edição.
6. Ações e dispositivos
Documentário
Será produzido um documentário audiovisual que registre memórias, práticas culturais e religiosas das mulheres indígenas da região de Ouro Preto. As mulheres protagonistas atuarão como eixos narrativos do filme, que incluirá também depoimentos, imagens e práticas de outras pessoas da comunidade, ampliando o conjunto de vozes e evidenciando a diversidade de experiências, gerações e territórios.
Oficinas e workshops
Serão realizados quatro workshops/oficinas conduzidos por mulheres indígenas reconhecidas por seus saberes específicos. As atividades incluem práticas como confecção de cestos e peças em taquara, cipó e palha de bananeira, tricô, tranças para bolsas, produção de alimentos tradicionais, como o assado de mandioca, além da valorização dos saberes de raizeiras, curandeiras e do uso de ervas medicinais.
7. Objetivos, metas e público
Objetivo geral
Desenvolver um processo de mapeamento, registro e fortalecimento dos saberes indígenas nos territórios de Piedade, Santo Antônio do Leite, Antônio Pereira e Ouro Preto, a partir do protagonismo das mulheres indígenas e dos processos contemporâneos de retomada cultural.
Objetivos específicos
Promover o protagonismo das mulheres e anciãs da comunidade.
Fortalecer redes comunitárias de transmissão de saberes.
Mapear a comunidade Borum-Kren e suas distribuições territoriais.
Produzir relatório etnográfico e materiais culturais a partir das narrativas orais e práticas culturais.
Metas
Conduzir quatro workshops comunitários.
Produzir um webdocumentário com registros do projeto.
Produzir um material digital multimídia com registros do projeto.
Desenvolver um relatório etnográfico sistematizando os processos e informações coletadas.
Garantir a circulação do material produzido em redes sociais, plataformas digitais e canais institucionais.
Perfil do público
O projeto é voltado às comunidades indígenas da região de Ouro Preto, com foco principal nas mulheres e anciãs, reconhecidas como agentes centrais na preservação, transmissão e atualização das memórias, saberes e modos de fazer da comunidade.